Definição
A paragem cardíaca é uma condição clínica em que há cessação abrupta e inesperada da atividade mecânica eficaz do coração, verificada pela ausência de pulso central palpável, apneia ou respiração agónica, e perda de consciência.
É um evento agudo e letal se não tratado imediatamente.
Fisiopatologia
A função normal do coração depende da condução elétrica organizada que gera contrações eficazes (sístole) e mantém o débito cardíaco. A paragem cardíaca resulta de uma falência elétrica ou mecânica do coração:
Tipos de ritmos de paragem cardíaca:
Dividem-se em duas categorias:
Ritmos chocáveis:
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Fibrilhação ventricular (FV):
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Atividade elétrica desorganizada → contrações ineficazes.
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Mais comum em paragens súbitas com causa cardíaca.
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Taquicardia ventricular sem pulso (TVSP):
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Atividade ventricular rápida sem produção de pulso eficaz.
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Ritmos não chocáveis:
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Assistolia:
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Ausência total de atividade elétrica cardíaca (“linha isoelétrica”).
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Geralmente terminal, com mau prognóstico.
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Atividade elétrica sem pulso (AESP ou PEA):
-
Atividade elétrica no ECG, mas sem pulso palpável.
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3. Causas – As "4H + 4T" (causas reversíveis)
Esta mnemónica ajuda a identificar causas tratáveis durante a RCP.
4H:
- Hipóxia – Falta de oxigénio (ex: asfixia, afogamento)
- Hipovolémia – Perda de volume sanguíneo (ex: hemorragia)
- Hipo/hipercaliemia (e distúrbios metabólicos) – Alterações de eletrólitos (K+, Ca2+, Mg2+)
- Hipotermia – Temperatura corporal < 30°C pode precipitar paragem
4T:
- Tóxicos – Drogas (opiáceos, antidepressivos, cocaína), intoxicações
- Tamponamento cardíaco – Acúmulo de sangue no pericárdio, impedindo o enchimento cardíaco
- Tensão pneumotórax – Pressão excessiva no tórax colapsa o pulmão e comprime o coração
- Trombose (coronária ou pulmonar) – Enfarte agudo do miocárdio ou embolia pulmonar
Diagnóstico Clínico
É essencialmente clínico. Baseia-se na tríade:
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Inconsciência
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Apneia ou respiração gasping
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Ausência de pulso central (carotídeo ou femoral)
O ECG deve ser feito rapidamente para identificar o ritmo e orientar a abordagem (ritmo chocável ou não).
Abordagem Inicial – Cadeia de Sobrevivência
Segundo as guidelines do European Resuscitation Council (ERC):
Reconhecer a paragem cardíaca
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Ver se a vítima responde, respira, tem pulso.
Ativar o sistema de emergência
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Ligar para 112 (ou 911/192/999 conforme o país)
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Pedir ajuda e buscar DAE.
Iniciar compressões torácicas (RCP de alta qualidade)
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100–120/min
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Profundidade 5–6 cm
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Recoil completo do tórax
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Minimizar interrupções
Desfibrilhação precoce
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Assim que o DAE chegar, aplicar os elétrodos e seguir as instruções.
Suporte Avançado de Vida (SAV)
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Via aérea avançada (ex: intubação)
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Administração de fármacos (ex: adrenalina)
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Identificação e tratamento das causas reversíveis
Medicação durante a paragem cardíaca
Em ritmos não chocáveis (assistolia ou AESP):
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Adrenalina 1 mg IV/IO a cada 3-5 minutos
Em ritmos chocáveis (FV/TVSP):
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Desfibrilar primeiro
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Se FV/TVSP persistir após 2 choques → adrenalina + amiodarona:
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Adrenalina 1 mg IV/IO
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Amiodarona 300 mg IV/IO após 3º choque
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7. Pós-reanimação (cuidados após retorno da circulação espontânea – RCE)
Se o paciente recuperar o pulso:
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Suporte ventilatório e hemodinâmico
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Controlo da temperatura (hipotermia terapêutica)
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Monitorização intensiva
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Identificação da causa (ex: coronariografia se enfarte)
Prognóstico
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Sobrevivência depende da rapidez da intervenção.
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Cada minuto sem RCP reduz a chance de sobrevivência em cerca de 10%.
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Ritmos chocáveis têm melhor prognóstico do que assistolia.
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A qualidade da RCP e o tempo até à desfibrilhação são os fatores mais importantes.
Prevenção
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Tratamento adequado de doenças cardíacas
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Monitorização de pacientes de risco
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Acesso público a DAE
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Formação em SBV da população geral
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Controlo de fatores de risco (tabaco, HTA, colesterol, obesidade, etc.)






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